Resenhas de Livros

3096 Dias

Em 3096 Dias conhecemos a história de Natascha Maria Kampusch (Viena, 17 de fevereiro de 1988). Uma cidadã austríaca conhecida por seu sequestro aos dez anos de idade, onde passou mais de oito anos em cativeiro. A resenha de hoje é sobre esse livro fascinante.. e muito perturbador.

Para mim, havia apenas uma mão que podia me salvar da fome. Era a mão do mesmo homem que sistematicamente retirava minha comida. Desse modo, as pequenas rações de comida ás vezes pareciam presentes generosos. Lembro-me claramente da salada de frios que a mãe dele preparava de vez em quando, nos fins de semana, e que ainda considero um prato especial. Quando eu podia voltar para o andar de cima, depois de dois ou três dias no cativeiro, às vezes ele me dava uma pequena tigela dessa salada. Geralmente só sobravam no molho cebolas e uns poucos pedaços de tomate, pois ele retirava os frios e os ovos cozidos. Mas esses restos eram um banquete para mim. E, quando ele me dava mais uma porção de seu prato ou mesmo um pedaço de bolo, eu ficava radiante. É muito fácil se ligar a alguém que tira sua comida.” (página 143)

Aprisionada numa cela no porão da casa de seu raptor, Wolfgang P?iklopil, desde 2 de março de 1998, quando se encontrava a caminho da escola, escapou em 23 de agosto de 2006, com então 18 anos. O caso foi descrito como um dos mais dramáticos da história criminal da Áustria. A história de Natascha chocou o mundo, transformou-a numa celebridade nacional e internacional e resultou numa autobiografia: 3096 dias (3096 Tage), em documentários, num filme baseado em seu livro e num posterior talkshow na televisão.

Meu cativeiro é algo com que vou ter que lidar durante toda a minha vida, mas aos poucos acredito que não serei mais dominada por ele.

Sendo a 3ª filha, após as irmãs já adultas e casadas, ela relata o sentimento do cansaço da mãe ao ter que regressar à maternidade quando finalmente acreditava estar ‘livre’ dessa enorme responsabilidade. É uma leitura curta. Natascha relata pequenos passagens de sua infância (anterior ao sequestro) dando ênfase aos sentimentos que os episódios a causavam.

As adversidades que sua mãe passou ao longo da vida, tornando-a uma pessoa mais fechada e fria, e a dificuldade de lidar com alguém que não demonstrava, em palavras, o afeto que uma criança espera. Vivendo no subúrbio, numa cidade dormitório com pouco mais de 9 mil habitantes, a rotina de Natascha era basicamente de casa para o colégio, do colégio para a mercearia na qual a mãe trabalhava, da mercearia para casa.

Vou tirar você daqui, prometo. Você ainda não pode fugir, porque é muito pequena. Mas, quando tiver 18 anos, vou dominar o sequestrador e libertar você desta prisão. Não vou abandoná-la. Naquela noite, fiz um pacto com meu próprio eu mais velho. E mantive a palavra.

O livro é fascinante. Confesso que assisti ao filme antes de ler e, como sempre, o filme não faz jus ao livro.. principalmente quando se trata de uma história como essa. Você não vai encontrar no filme um detalhamento sobre os pensamentos de Natascha, não vai conseguir alcançar a tortura que ela viveu nesses mais de 3 mil dias. Não vai conseguir entender como ela pode sobreviver tanto tempo em condições tão desumanas e não alcançará o medo que algemava suas mãos e atava seus pés, impedindo-a de ao menos tentar escapar.

Nós, seres humanos, temos a capacidade de criar a aparência de normalidade mesmo nas circunstancias mais anormais, para não enlouquecer, para sobreviver. Às vezes, as crianças fazem isso melhor que os adultos.

3096 Dias é um filme que te prende e vale muito a pena assistir (a Juliana contou um pouco mais sobre a sua experiência em um post aqui no blog), mas nada supera a leitura desse livro. Nele Natascha se sente livre para expressar sua real visão sobre o sequestrador.

Em diversas entrevistas ela se deparava com o termo: Síndrome de Estocolmo (que é o nome normalmente dado a um estado psicológico particular em que uma pessoa, submetida a um tempo prolongado de intimidação, passa a ter simpatia e até mesmo sentimento de amor ou amizade perante o seu agressor).

“Eu também era criança quando começou o meu cativeiro. O sequestrador me separou do mundo que eu conhecia e me colocou em seu próprio mundo. A pessoa que me roubou, que retirou minha família e minha identidade, se tornou minha família. Eu não tinha escolha a não ser aceita-lo como tal, e aprendi a obter felicidade dessa afeição e a reprimir o que era negativo. Assim como qualquer criança que cresce em uma família disfuncional.

Depois da fuga fiquei surpresa, não pelo fato de que eu, como vítima, fosse capaz de fazer essa diferenciação, mas de que a sociedade na qual entrara após meu cativeiro não permitisse a menor nuance. Como se eu não pudesse refletir de maneira alguma sobre a pessoa que fora a única em minha vida durante oito anos e meio. […] Ao mesmo tempo, percebi que, em certa medida, também idealizei a sociedade. Vivemos em um mundo em que mulheres apanham e são incapazes de abandonar o homem que bate nelas, embora, em tese, a porta esteja aberta. […] Nossa sociedade precisa de criminosos como Wolfgang Priklopil para dar rosto ao mal e afastá-lo da mesma. É preciso ver imagens desses porões para que não se vejam os muitos lares em que a violência ergue sua face burguesa e conformista. A sociedade usa as vítimas desses casos sensacionalistas, como o meu, para se despir da responsabilidade pelas muitas vítimas sem nome dos crimes praticados diariamente, vítimas que não recebem ajuda – mesmo quando pedem.  […] O criminoso deve ser um mostro, para que possamos nos ver ao lado dos bons. O crime deve ser acrescido de fantasias sadomasoquistas e orgias selvagens, até que seja tão extremo que não tenha mais nada a ver com a nossa própria vida.

E a vítima deve ficar destruída e permanecer assim, para que a externalização do mal seja possível.  A vítima que se recusa a assumir esse papel contradiz a visão simplista da sociedade. Ninguém que ver isso, porque, caso contrário, as pessoas teriam que olhar para dentro de si mesmas.”

Natascha tenta mostrar para as pessoas que não existe nada preto ou branco, que não existe – assim como nos filmes – o bem e o mal. Até mesmo nos filmes, hoje em dia, tentam mostrar que os vilões tem um lado mais “humano”, como no filme “Malévola”. Ela não “defende” seu sequestrador, apenas enxerga que ele era um humano, que vivia normalmente em sociedade e era capaz de agir perversamente anonimamente, assim como diversas pessoas que utilizam da internet postando comentários anônimos para descarregar ódio contra os demais.

Ela entende que existem pessoas com distúrbios (assim como era o caso de seu sequestrador) mas que não existe uma linha que divida o bem e o mal. Muitas pessoas, em uma fração de milésimos, ao tomar uma atitude errada e puxar um gatilho, ou furtar algo numa mercearia, ultrapassam essa linha tênue imaginária que criamos. Vemos o jornal e julgamos aqueles que são pegos furtando, seja alimento ou seja eletrônico. Julgamos como se fossem pessoas do outro lado da linha social que divide o bem do mal. Sempre colocamos um cenário mais macabro em volta desses indivíduos para caracterizar enormes diferenças entre eles e nós, para que não tenhamos de admitir que são humanos como nós, que somos humanos como eles.

Natascha relata momentos perturbadores. Conta sobre surras, fome, tortura física e psicológica, conta mais detalhes sobre seus sentimentos em cima das situações do que dos fatos em si e é isso o que mais fascina no livro: você sentir pelo menos uma minúscula parcela do que ela relatou sentir.

– Natascha! Natascha! – ouvia de todos os lados.
Amparada por dois policiais, caminhei até o carro. A imagem das pernas brancas, cheia de hematomas, debaixo de um cobertor azul, revelando apenas uma faixa do vestido laranja, percorreu o mundo.

Num primeiro momento me parece absurdo o que ela escreve. Como você pode querer enxergar humanidade em alguém que não respeitou o humano que você é? Acredito que essa é a primeira reação da maioria das pessoas, mas é muito interessante ver alguém que passou por tanta dor e sofrimento manter sua humanidade para com aquele que tomou o seu direito a dignidade.

Confesso que alguns momentos fica complexo alinhar meus pensamentos para alcançar o “nível de perdão” que ela alcançou, mas é uma leitura incrível, que você não tem tempo de cansar de tão envolvente que é. Se você ainda não leu ou assistiu ao filme.. faça-o. É um conteúdo que vai, de formas totalmente inimaginável, te modificar como ser humano nem que seja só um pouquinho.

Ao escrever este relato, tentei encerrar o capítulo mais longo e sombrio da minha vida. Sinto-me aliviada, porque pude encontrar palavras para o que considero indescritível e contraditório. Rever tudo em minha mente, em branco e preto, me ajuda a olhar para o futuro com confiança. O que vivi me dá força – sobrevivi ao cativeiro no porão, fugi e permaneci de pé. Sei que posso viver minha vida em liberdade também. E essa liberdade começa agora, quatro anos depois do dia 23 de agosto de 2006. Somente agora, nestas páginas, posso deixar o passado para trás e dizer verdadeiramente: Estou livre.

3096 dias

Autora: Natascha Kampusch
Editora Verus
225 páginas
Sinopse: Natascha Kampusch sofreu o destino mais terrível que poderia ocorrer a uma criança: em 2 de março de 1998, aos 10 anos, foi sequestrada a caminho da escola. O sequestrador – o engenheiro de telecomunicações Wolfgang Priklopil, a manteve prisioneira em um cativeiro no porão durante 3.096 dias. Nesse período, ela foi submetida a todo tipo de abuso físico e psicológico e precisou encontrar forças dentro de si para não se entregar ao desespero.