Becoming Jane (Amor e Inocência)

Eu tenho um professor que vez e sempre fala que “o ser humano não possuí essência, pois quem tem essência é perfume”, mas, na carência de outra palavra que possa sintetizar o que os roteiristas tinham em mente, quando decidiram reunir as cartas que a proeminente escritora inglesa, Jane Austen trocou com a sua irmã Cassandra no auge de sua juventude, na hora de compor o roteiro do filme Becoming Jane (Amor e Inocência, se preferir), irei ficar com esta palavra mesmo: essência.

Os roteiristas Kevin Hood e Sarah Williams tiveram todo um cuidado ao analisar os escritos que foram enviados a Cassandra e não foram destruídos pela mesma; o cuidado dos roteiristas e a precisão de cada um na hora de avaliar todo o material produzido por Jane foi fundamental para preencherem as lacunas que ficaram abertas pela falta do acervo completo das cartas escritas pelas irmãs (que tinham o costume de lançar ao fogo tudo que fosse considerado imoral para época), para assim preservar e manter em sigilo parte de suas vidas; cada lacuna foi devidamente preenchida pela essência de Jane.

Para quem já teve o prazer de ler uma obra de Jane ou até mesmo teve a oportunidade de assistir algum filme inspirado em uma de suas histórias, pode ter um vislumbre de como era a escritora em sua vida privada e pode concluir o quanto Austen era à frente do seu tempo, prova disso é que assim como a personagem Elizabeth Bennet criada por ela para o livro ”Orgulho e Preconceito”, Jane também sofreu pressão para se casar, porém, a mesma se recusou a ceder por desejar se casar por amor. E, acredite em mim, querer se casar por amor em 1875 é um ato visionário, já que naquela época era costume que os casamentos fossem arranjados por diversos motivos (e ainda é costume em alguns países da Ásia), e na grande maioria das vezes o sentimento que os noivos nutriam um pelo o outro (principalmente os das noivas) não tinha a menor relevância na hora de selar o contrato, por isso, um casamento auto arranjando ou casamento por amor era uma sinal de modernidade que a sociedade da época não aprovava; pois, além dos noivos estarem indo contra a tradição, eles também estavam indo contra todo um sistema socioeconômico, consequentemente tornavam-se assim progressistas. E, como bem vocês sabem, naquela época a figura feminina tinha uma expressividade quase que nula na sociedade, o papel dela era bem claro e limitado

…o extremo do caráter de uma mulher é expresso nos deveres de filha, irmã e, finalmente, esposa e mãe. (Becoming Jane, 03:55 – 04:09)

e, somente cogitar ser mais do que isso, era sinônimo de desonrar e desgraça.

…se uma mulher tiver uma superioridade específica, por exemplo, uma mente profunda, é melhor que essa profundidade seja mantida em segredo. O humor é muito apreciado, mas e a inteligência? Não. E a qualidade mais traiçoeira de todas. (Becoming Jane, 04:18 – 04:34)

Não preciso dizer que adquirir esta independência através da escrita era uma era um verdadeiro escândalo para a época, né?

Escândalo é tudo o que a mãe de Jane desejava evitar, tentando de certo modo conter a perspicácia e a ironia da filha para que a mesma pudesse arrumar um bom casamento e, com um bom casamento, eu quero dizer: casar-se com um homem rico. A mãe de Austen a leva para conhecer o sobrinho e futuro herdeiro da senhora Lady Grisham, uma mulher um tanto quanto ríspida e amargurada (creio eu por não ter atingido todos os objetivos esperado para uma mulher daquela época, ela tenha ficado assim), e mesmo  que a princípio parecendo não fazer muito gosto da união dos jovens, ela acaba os incentivando a ficarem juntos. Mas, para a infelicidade de Austen, Wisley acaba pedindo a sua mão em casamento. Neste meio tempo Jane Austen conhece Thomas Lefroy, um jovem advogado irlandês conhecido por sua má reputação que, por conta de seus modos, foi mandado pelo seu tio a cidade natal de Austen. Inicialmente ambos se repelem, ele a diminui ao falar que seu escrito é ‘bem dito’ e ela escreve uma ‘pequena’ lista de adjetivos negativos sobre ele.

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Eles constroem uma espécie de relacionamento permeado de ironias e farpas, no entanto, como também vocês estão cansados de saber.. a linha entre o ódio e o amor é tênue e, qualquer passo em falso, lá estamos nós odiando ou amando o dito cujo. Neste caso, notoriamente, eles pendem para o lado cor-de-rosa da coisa, fazendo com que suspirássemos a cada troca de olhar, a cada declaração e demonstração de afeto/cumplicidade dos dois.

Não fale ou pense. Nunca desistirei de você. Apenas me ame. Você me ama?

Resultado de imagem para becoming jane GIFMas nem tudo são flores. Jane queria ser escritora e se casar por amor, o que era o mesmo que ganhar na mega-sena da virada, e Lefroy tinha uma má reputação, uma família numerosa que dependia dele, que dependia de seu conservador tio que não tinha se agradado nenhum pouco com o jeito Jane Austen de ser. Tudo piora quando o tio de Lefroy recebe uma carta maldizendo sobre Jane e sua família, o que acaba separando o casal por um tempo; Quando o amor acaba falando mais alto e eles decidem fugir juntos.. nem tudo acaba ocorrendo como planejado e Jane precisa tomar uma decisão definitiva.

Que importância terá a vida se não estivermos juntos?

Notas sobre o filme & Considerações finais

Quando eu comecei assistir Becoming Jane após ler um comentário de uma amiga no Facebook, não tinha a menor ideia do que se tratava o enredo! Só sabia que tinha a linda/maravilhosa Anne Hathaway e o meu crush supremo do cinema James McAvoy no elenco principal. Somente perto do finalzinho do filme que eu fui me dar conta que o longa-metragem se tratava de uma obra cinebiografia da escritora romancista Jane Austen, responsável pelos clássicos da literatura inglesa, como por exemplo: Pride and Judice (Orgulho e Preconceito).

E, falando nesse livro-filme, ele ganhou um novo significado para mim depois de assistir a história de Jane e Lefroy. A história deles se parecem em tantos aspectos com a história de Bennet e Darcy que fica difícil não considerar a ideia de que, na verdade, Orgulho e Preconceito seja uma fanfic inspirada da vida da própria Jane, obviamente com um final diferenciado.

“Imagine tudo de mais reprovável e chocante no jeito de dançar e de sentarmos” – trecho extraído de uma das cartas escritas por Jane Austen (REEF, Catherine. Jane Austen – Uma vida revelada. Tradução de Kátia Hanna. Barueri, SP. Novo Século, 2014. pag. 64).

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Se vocês repararem bem, tem cenas de Amor e Inocência que se assemelham as cenas do filme Orgulho e Preconceito, como por exemplo quando eles estão dançando em um baile. O poster promocional de ambos os filmes se parecem também. E sabe o que reforça ainda mais essa teoria da fanfic? Cenas do filme mostram Jane escrevendo ”Pride and Justice” (que no filme aparece com o título provisório: ”primeiras impressões”) enquanto estava vivenciando tudo aquilo com Thomas (Tom). Há também duas cenas que ajudam a dar fundamentação esta teoria: a primeira é entre ela e sua irmã (1:25:20 – 1:27:10), já a segunda é com Wisley (1:48:10 –1:48:43). Claramente existe um pessoal que não acredita nesta teoria e diz que Lefroy não passou de um namoradinho de verão, contudo, existe algumas fatos que ajudam a provar o contrario (assim como na tela, Tom também colocou o nome o nome de Jane em sua filha) e claro, algumas cartas que dão a entender que o envolvimento deles foi mais longo.

Saindo da teoria pra voltar ao enredo do filme, preciso dizer que por mais que o tema central do longa seja o romance entre Austen e Lefroy, a trama não gira em torno somente disso. Há também os conflitos com a sua mãe, a amizade com a irmã Cassandra, a cumplicidade com o pai, a construção de sua personalidade, suas ironias e perspicácias, suas vontades, suas escolhas, suas prioridades, suas renuncias, suas influencias, seu meio familiar e social, seu processo criativo, seu lado feminista, seus desejos…

Enfim, há uma enorme gama de elementos que fazem parte do seu dia-a-dia que podemos observar e concluir que eles não só compõem a essência de Jane, como também fazem com que ela se torne o que ela foi como escritora. Conhecemos também um pouco da vida de Lefroy e, nos minutos finais do filme, entendemos o motivo dele ser como era, o motivo pelo qual ele criou uma má reputação para si mesmo.

Três coisas que eu preciso dizer antes de terminar este post:

  • achei o figurino deles a coisa mais amorzinho da vida;
  • a trilha sonora ajuda a compor aquele clima bucólico inglês do século XX;
  • e pelo amor de Deus, o que foi a química em cena entre a Anne e o James?!

Resultado de imagem para becoming janeBECOMING JANE

Ano: 2007
Direção: Julian Jarrold
Duração: 1h:58min. Elenco: Helen McCrory, James McAvoy, Anne Hathaway, Maggie Smith, James Cromwell, Julie Walters.
Roteiro: Kevin Hood e Sarah Williams
Título: “Amor e Inocência” (Becoming Jane).

Sinopse: Jane Austen tem 20 anos e começa a se destacar como uma escritora. Enquanto ela está mais interessada em desvendar o mundo, seus pais querem que ela logo se case com um homem rico, que possa assegurar seu status perante a sociedade. O principal candidato é o sr. Wisley, neto da aristocrata Lady Gresham, mas Jane se interessa é pelo malandro Tom Lefroy, cuja inteligência e arrogância a provocam.

Becoming Jane é um filme envolvente e apaixonante, um romance de encher coração e os olhos. Se você tiver vontade de conhecer um pouquinho mais sobre Jane Austen.. confere > esse post aqui <, ele está cheio de curiosidades sobre a autora!