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Crítica de Filmes

Histórias Cruzadas

Posso apostar com vocês que a grande maioria das pessoas que gostam de inflar seus pulmões na hora de dissertar e vangloriar os Anos Rebeldes, pouco sabem por que os anos 60 recebeu esta denominação. Mas, vamos lá. Vamos deixar de lado o charme e a moda dessa época para relembrarmos das nossas aulas de história ao falarmos um pouquinho sobre o filme estrelado por Viola Davis: Histórias Cruzadas.

1960 ficou conhecido como ‘os Anos Rebeldes’ devido aos grandes movimentos pacifistas (muitos deles encabeçados pelo movimento hippie, através de protestos contra a guerra fria, a guerra no Vietnã, e o racionalismo) que recebeu o apoio da música, do Rock and Roll pra ser mais exata, e que trazia consigo uma conotação extremamente política. As letras das canções eram elaboradas de modo que pudesse evidenciar e denunciar questões sociais que afligiam e eram tabu na época. A moda também teve o seu papel social nessa história, já que em 1964 a estilista Mary Quant apresentou ao mundo a minissaia, o que foi entendido como um gesto de rebeldia já que as mulheres eram belas, recatadas e do lar. Lembram que eu falei disso na resenha do filme Foi apenas um sonho? Continuando… logo após veio a Revolução Sexual que, junto com a onda do amor-livre, defendia a liberdade de cada um ter de relações sexuais do jeito e com quem quisessem. Paralelamente ocorria a vitória de J. F. Kennedy, a coligação de centro-esquerda na Itália em 1963, a vitória dos trabalhistas na terra da Rainha em 1964, a Revolução Cubana na América Latina que acabou conduzindo Fidel Castro ao poder e, por fim, ocorria o Golpe Militar aqui no Brasil em 1964: apenas cinco anos antes do homem ir a lua pela primeira vez.

Ah, e antes que eu me esqueça do mais importante: Martin Luther King Jr. que, naquela época, liderava marchas a fim de conseguir o direito ao voto, o fim da segregação racial, o fim das descriminações trabalhista, além de outros direitos civis básicos.  Relembrou? Deu pra ter uma ideia por que os anos 60 ficou conhecido como ‘Anos Rebeldes‘? Todas as minorias (homossexuais, negros, mulheres e trabalhadores) estavam ganhando destaque e isso estava fazendo barulho, muito barulho! E foi se apoiando nisso que o diretor e o roteirista Tate Taylor direcionou o seu olhar pra extrair o melhor do romance homônimo, a Resposta, de Kathryn Stockett.

Ambientado em Mississippi, a atrasada capital Jackson nos é apresentada de forma íntima pela narrativa calma e carregada de tristeza de Aibleen Clark (Viola Davis). Ela nos relata como é ser uma Help (termo usado para denominar as empregadas negras da época), como é ter que usar um banheiro separado dos seus patrões pelo simples fato deles acharem que os negros possuem germes e outras doenças que as impendem de partilhar o mesmo vaso sanitário, como é ter que cuidar de outras crianças enquanto as suas estão em casa, como é saber que ela não pode ter outra expectativa de vida por conta da cor de sua pele e por conta do seu sexo/gênero, como é saber que podem lhe negar socorro por ela ser negra, dentre outros horrores racistas.

Eles carregam doenças diferentes das nossas. É por isso que eu redigi a Iniciativa de Limpeza Sanitária do Lar.

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Em meio à narrativa de Clark, somos apresentados também à Eugenia (Skeeter) Phelan (Emma Stone), uma jovem recém-formada, à frente ao seu tempo, que enxerga os negros de igual pra igual. O elo entre a Skeeter e Clark é instaurado quando a personagem de Emma Stone passa a trabalhar no jornal da cidade e lá, ela tem o trabalho de escrever conselhos domésticos numa coluna, no entanto, ela não tem muita noção sobre o assunto e por isso ela passa a contar com a ajuda da personagem de Davis, a empregada de sua amiga, já que a sua ‘mãe-negra’ foi embora enquanto estava longe. E é entre um aconselhamento e outro que Eugenia tem a ideia de escrever uma história, mas não qualquer história: a história das empregadas que são hostilizadas e humilhadas por motivos banais.

Qual é a sensação de levantar uma criança branca quando seu próprio filho está em casa sendo cuidado por outra pessoa?

O projeto é parcialmente aceito por uma Editora de New York, contudo, Skeeter precisa encontrar outras empregadas para compor o livro. É nessa busca que conhecemos mais a fundo as histórias dessas empregadas e das famílias que empregam essas mulheres.

Outro ponto também, que não é tão evidenciado quanto as histórias das empregadas, é o peso que as mulheres, de um modo geral, carregam com o fardo de terem o seu valor mediado por sua beleza, sua obediência ao marido e sua capacidade de gerar uma outra vida.

Notas sobre o filme &  Considerações finais

Eu queria poder concluir essa resenha dizendo que todos os esforços da época atingiram o resultado almejado e que hoje o mundo é um lugar melhor, mas eu não posso ser hipócrita a tal ponto, pois, assim como mulher negra que tem amigas negras, sei perfeitamente como é ter a nossa capacidade subjugada pelo fato de sermos mulheres e pelo fato de sermos negras. Claro que isso não ocorre de modo escancarado como no filme. É algo mais velado, tão velado que às vezes passa despercebido; mas, não se engane: não é por que hoje é algo mais escondido que a dor não seja a mesma. Infelizmente o pré-conceito se tornou patrimônio mundial e fazemos questão de preservar quando disseminamos através de piadas, marchinhas, músicas, memes, conteúdos machistas, sexistas, homofóbicas, xenofóbicos e racistas.

Eu posso ter dificuldade em lembrar meu próprio nome, ou o país em que vivo, mas há duas coisas que eu não consigo esquecer: que a minha própria filha me jogou em um asilo, e que ela comeu merda da Minny.

Por mais que os negros, os trabalhadores, as mulheres e os homossexuais tenham conquistado muitas coisas, estamos longe de atingir a igualdade que a justiça que diz que todos os seres humanos são iguais e possuem perante a lei. A história do filme retrata perfeitamente os embates e os desnivelamentos sociais da época (pelo ponto de vista dos mais interessados e afetados pela causa), mas que facilmente poderia retratar os dias atuais, já que essas histórias se cruzam e descruzam ao longo da vida.

Você é amável. Você é inteligente. Você é importante.

Histórias Cruzadas me levou a uma reflexão profunda e densa, tocou numa pequena magoa que eu nem sabia que eu tinha, mas também levou as gargalhadas e me fez vibrar por cada personagem que me identifiquei.

HISTÓRIAS CRUZADAS

Ano de produção: 2011
Classificação: 12 anos
Direção: Tate Taylor
Duração: 146 minutos.
Elenco: Viola Davis, Emma Stone, Octavia Spencer, Bryce Dallas Howard, Jessica Chastain, Allison Janney, Cicely Tyson, Sissy Spacek.
Gênero: Drama
Título: Histórias cruzadas
Origem: EUA

Sinopse: Skeeter terminou a universidade e volta para sua casa em Jackson, Mississippi, sul dos EUA, no começo dos anos 60. E descobre como grande assunto revelar a relação quase escravagista entre patroas brancas e empregadas negras no momento em que o país era sacudido pelo movimento pelos direitos civis.

HISTÓRIAS CRUZADAS GANHOU UM OSCAR, UM BRITISH ACADEMY OF FILM AND TELEVISION AWARD, UM GLOBO DE OURO E TRÊS SCREEN ACTORES GUILD AWARD.

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20 anos, estudante de Psicologia. Formada em TV e Cinema pela Oficina de Atores em 2010. Blogueira por amor e colaboradora do #LuzCâmeraAção no Garota Agridoce. ;)