Crítica de Filmes

3096 DIAS

3096 dias. 8 anos. Pense num filme cru. Quando for pensar não leve para o lado negativo da coisa e, se me permitir, sugiro que pense assim: ‘essa aqui é uma história e ela não precisa de nenhum artifício tecnológico, maquiagem ou recorrer a alguma doença terminal para te/me comover’.

Pensou? Posso apostar que levou certo tempo pra chegar a uma resposta e, se servir de consolo, você não é o único.

Gênero: Drama
Direção: Sherry Hormann
Roteiro: Ruth Toma
Elenco: Amelia Pidgeon, Angelina Noa, Antonia Campbell-Hughes, Dearbhla Molloy, Ellen Schwiers, Erni Mangold.
Produção: Martin Moszkowicz
Fotografia: Michael Ballhaus
Trilha Sonora: Martin Todsharow
Sinopse: Uma jovem austríaca é raptada e mantida em cativeiro durante oito anos. Baseado na história real de Natascha Kampusch.

Em tempos em que “menos é mais” só é valorizado em legenda de foto no instagram, é difícil encontrar filmes que se encaixem nos itens mencionados acima e quando encontro uma obra dessas costumo brincar que achei o meu pote de ouro no final do arco-íris. Dirigido por Sherry Hormann, a obra que iriei resenhar neste post é uma adaptação cinematográfica do best seller autobiográfico 3096 dias (publicado em 2011 pela Editora Verus) e carrega um título que faz referência clara ao drama vivido pela austríaca Natascha Kampush que, num processo admirável de resiliência, me lembrou um dos recentes discursos da atriz Meryl Streep, onde a mesma mencionou um trecho das conversas que teve com a também atriz Carrie Fisher, a eterna Princesa Leia: “pegue seu coração partido e o transforme em arte“.

Kampush narrou em um livro de 255 páginas e, posteriormente, num longa de 111 minutos todo o sofrimento que passou por 8 anos (3096 dias) nas mãos de Wolfgang Priklopil, seu sequestrador. Dividida em duas fases, a história segue como se fosse uma espécie de documentário diário, com Natascha conduzindo à narrativa; logo nos primeiros minutos, conhecemos a história de Kampush e do seu pequeno núcleo familiar quando ela ainda é apenas uma criança.

Amelia Pidgeon com Natascha

Responsável pela primeira fase da trama, a atriz Amelia Pidgeon, que nos apresenta de uma forma sútil e meiga uma Natascha criança, que expressa todo o seu medo no olhar e nas lágrimas que rolam pelo seu rosto; que procura escapar daquela realidade brutal brincando com o que tem disponível, com leituras e até mesmo com um pedido singelo de “um beijo de boa noite“.

“Vou tirar você daqui, prometo. Você ainda não pode fugir, porque é muito pequena. Mas, quando tiver 18 anos, vou dominar o sequestrador e libertar você desta prisão. Não vou abandoná-la. Naquela noite, fiz um pacto com meu próprio eu mais velho. E mantive a palavra.”

Já a segunda fase da obra ficou sob os cuidados da atriz Antonia Campbell-Hughes, que nos apresenta uma Natascha adolescente que, mesmo amedrontada e agora abatida por conta das inúmeras privações e torturas que é obrigada a passar, ainda consegue possuir dois traços bem característicos da adolescência: a língua afiada e a impulsionalidade (essa última com certa defasagem por conta dos traumas vivenciados no cativeiro).

Tanto na primeira quanto na segunda fase, apenas o ator Thrure Lindhardt ficou encarregado de dar vida ao personagem mais emblemático da trama, conseguindo de uma forma brilhante nos levar para dentro da cabeça de Wolfgang (por mais que não saibamos muito sobre a vida dele) e, com isso, nos guiando na junção das peças do quebra-cabeça.

Ao vê-lo em cena me lembrei de uma frase que meu professor de filosofia mencionou em sala, se referindo ao um texto que ele tinha lido naquela semana e que eu infelizmente não lembro o nome: a boca cala, o corpo fala. Em diversos momentos não havia aquele jogo de palavras. Existia apenas trocas de olhares, expressões corporais e sutis mudanças de humor te contando uma história.

3096 dias

CONCLUSÃO

Esse filme chegou ao meu conhecimento graças a minha irmã Julia Maria, que o assistiu já fazem alguns meses e, desde então, não parou de falar sobre e, consequentemente me obrigou a assistir. Confesso que só decidi assisti-lo por que eu não aguentava mais ouvi-la reclamar que eu não vejo nenhum filme que me indica (o que é uma grande mentira) e também por que a encenação exagerada que ela fez dos melhores momentos do filme foi algo que definitivamente aguçou minha curiosidade e gerou certa expectativa. Não preciso nem dizer que essas expectativas foram atendidas com sucesso, né?

O filme evolui junto à personagem principal e quanto mais velha Natascha fica, maior é carga emocional projetada pra tela, maior é o sentimento deturpado que o seu sequestrador nutri por ela e maior é a inquietação que você sente. O desfecho me fez ficar em absoluto silêncio, para não perder nenhum lance.

DISPONÍVEL EM: AMAZON – SUBMARINO – SARAIVA

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20 anos, estudante de Psicologia. Formada em TV e Cinema pela Oficina de Atores em 2010. Blogueira por amor e colaboradora do #LuzCâmeraAção no Garota Agridoce. ;)