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Resenhas de Livros

Laranja Mecânica – Anthony Burgess

Considero Laranja Mecânica, enquanto filme, uma das melhores adaptações cinematográficas que já assisti. E não é simplesmente pelo fato de ter sido dirigida por um diretor que gosto muito, mas por realmente ser louvável tanto quanto a obra original. É claro que muitas partes do filme divergem de sua obra original, o que de fato é compreensível, mas é muito difícil presenciar este fenômeno no qual o filme alcança grande visibilidade, muitas vezes superando até mesmo o livro. Particularmente, prefiro o livro, ainda mais pelo fato de que muitas coisas que ficam à própria interpretação no filme, o que certamente é uma característica das produções Stanley Kubrick, são mais explicadas satisfatoriamente no livro. Em alguns textos, Burgess chegou a afirmar, em outras palavras, que A Laranja não era mais dele, e pensando nesse fato, criou uma peça para lembrar às pessoas de quem era o real criador da história. O que é de se entender! O filme, sem dúvidas, é extremamente violento, mas tem umas partes muito engraçadas. Vem conferir a resenha!

Narrada pelo protagonista, o adolescente Alex, esta brilhante e perturbadora história cria uma sociedade futurista em que a violência atinge proporções gigantescas e provoca uma reposta igualmente agressiva de um governo totalitário. A estranha linguagem utilizada por Alex – soberbamente engendrada pelo autor – empresta uma dimensão quase lírica ao texto. Ao lado de “1984”, de George Orwell, e “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley, “Laranja Mecânica” é um dos ícones literários da alienação pós-industrial que caracterizou o século XX. Adaptado com maestria para o cinema em 1972 por Stanley Kubrick, é uma obra marcante: depois da sua leitura, você jamais será o mesmo.

Anthony Burgess: Escritor, poeta, dramaturgo, compositor, linguista, tradutor e crítico, Anthony Burgess nasceu em Manchester, Inglaterra, em 1917. Formou-se em Literatura Inglesa pela Universidade de Manchester, serviu no Exército e, entre 1954 e 1960, trabalhou como professor junto ao Serviço Colonial britânico na Malásia. Ao retornar à terra natal, recebeu a notícia de que tinha um tumor no cérebro. Desenganado, Burgess passou a escrever mais intensamente para garantir o sustento da esposa após sua morte. Foi nesse período que concebeu Laranja Mecânica (1962). Mas o diagnóstico estava errado e o autor viveu até os 76 anos.¹

A Laranja: Nesta edição especial existem vários textos e entrevistas do autor, no qual ele justifica a escolha do nome do livro e explica seus significados. Ele ouviu a expressão “Laranja Mecânica” pela primeira vez num pub londrino, antes da Segunda Guerra Mundial. Tratava-se de uma gíria cockney antiga que se refere à esquisitice ou insanidade tão extrema que chega a subverter a natureza. Esse fato o atraiu, e de certa forma, grudou em sua mente até ele resolver utilizá-lo como título do livro alguns anos mais tarde. O autor ainda desenvolve uma série de reflexões que ligam diretamente o nome e significado dado à obra, à diversas filosofias discutidas e mostradas através/e durante o filme. A obra ainda carrega diversos simbolismos, principalmente na escolha do nome do personagem A-lex, mas deixarei essas duas questões para vocês se aprofundarem quando lerem o livro! 😉

laranja

Curiosidades:
• Algo que me chocou foi ter descoberto que a cena do estupro na casa do vek escritor é baseado diretamente na primeira esposa de Burgess. O autor, em um de seus textos extras, conta que sua primeira esposa fora atacada numa travessa em Londres.
• Vale lembrar que na edição britânica, o livro conta com um capítulo extra narrando o que aconteceu com Alex depois de ter saido do hospital.

Mini dicionário curioso:
• PONEAR: entender
• MALTCHIK: garoto
• SHAIKO: gangue
• DRUGUIS: amigos
• NADSAT: adolescente
• HORRORSHOW: legal
• ROT: boca
• PTITSA: garota
• KOPATAR: compreender
• INTERESSOVATAR: interessar

Vocabulário Nadsat: Burgess criou toda uma linguagem peculiar que mistura substantivos de origens slavas, algumas palavras russas e atrelou-os à uma característica que denominou “rhyming slang”, uma espécie de gíria rimada que é uma mistura de cockney (modo de falar da classe operária britânica) com um vocabulário de repetições típico das crianças em fase de aprendizado da fala. Assim nasceu o “nadsat”, linguagem pela qual o narrador se expressa. Alguns exemplos de palavras do típo são “escolacola”, “devotchkas”, “druguis”, “britva” e etc. À princípio, o modo de expressão do personagem acaba por provocar certa estranheza, e é, sem dúvidas, praticamente impossível levar a leitura num primeiro ato, sem antes dar uma lida no dicionário nadsat ao final do livro – aliás, é o que recomendo para quem pretende ler pela primeira vez. Depois que acostumamos, acabamos incorporando a graça e genialidade daquilo tudo e se torna uma leitura muito divertida e diferente. Inclusive, acho engraçado que algumas palavras são incorporadas à nossa vida, mesmo sem querer, foi quando me vi usando “horrorshow” espontaneamente pra designar algo maravilhoso. Haha! Vários pontos ainda para o trabalho da Editora cuja tradução não prejudicou o significado das palavras.

Como vocês já devem ter percebido, foi um dos livros que mais gostei de ler este ano. Muito original, principalmente por sua linguagem. É, sem dúvidas, extremamente violento, mas em prol de se conseguir o significado de todo o experimento e mudança de comportamento do personagem, creio que fora necessário.

São super interessantes as questões que a história levanta, como por exemplo, o fato do mal por escolha ser ruim, mas a bondade por condicionamento também ser uma espécie de violência. Abre o leque para questões politicas, do início de uma dominação por parte do governo que é fortemente combatida.

Fiquei chocada quando descobri a idade do personagem: “e eu tinha apenas 15 anos”, principalmente em comparação à toda ultraviolência o que ele cometia. E como o próprio personagem se explica, ele louva a violência simplesmente por escolha, por querer, e sem motivos. Se ele pode escolher a “loja do bem”, e a “loja do mal”, prefere ficar com esta última, Ó, meus irmãos, simplesmente por querer!

E esta fora as minhas impressões de uma das distopias mais influente e importante de todos os tempos. Ainda teria mais inúmeras coisas para falar, como por exemplo, a técnica Ludovico, a simbologia de Beethoven, e muito mais. É um livro/filme que abre vários panoramas de discussões. E é dessa forma que, pensando que Alex sofreu pouco, mas gostando muito de todo esse palavreado horrorshow, fico por aqui!


¹ Texto extraído da contra-capa do livro.

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Gírias cariocas com aquelas boas manias paulistanas. Um toque único de cada livro lido, cada série assistida, cada filme lembrado.. um conjunto de memórias, de lembranças boas a serem compartilhadas.